Eu tenho muitas aversões, é bem verdade. Costumava ir à shows alternativos no berço cultural da minha cidade, costumava ir à festas e ouvir música independente em lugares insólitos, talvez pelo fato de sentir que isso fazia da minha identidade algo mais original ou talvez pelo fato de me sentir mais confortável em lugares onde há pessoas desajustadas. Mas de uns tempos pra cá, virou moda ser desajustado. E sim, eu sou daqueles que têm síndrome de mainstream. Porque foi assim com o mundo. Acredito que se houvesse menos pessoas no mundo, ele seria um lugar mais confortável e haveria menos jogo de poder, menos coisas tristes e depreciativas banhadas à coca-cola. Acredito que artistas em geral, só são realmente verdadeiros quando fazem arte para não enlouquecer. Talvez por isso os verdadeiros gênios que eu considero, só foram descobertos pela arte acadêmica ou de elite após a morte. Quando um gênio desses é descoberto em vida, sua obra passa não mais a ser apenas uma válvula de escape, mas ela vira parte de um todo. De um rio, que é levado pela correnteza da crítica, dos fãs e de toda a poluição que esses rios do mundo moderno possuem.
São poucos os artistas que conseguem manter a arte como perspectiva salvadora, independente do patamar que sua arte atinja. Porque artistas são seres humanos e seres humanos são fracos. O silogismo de Aristóteles nunca mente. E é difícil fazer com que a arte atinja sempre o mesmo lugar. Não que ela deva ser estática, mas assim como a técnologia bélica: mudar para acertar o alvo com mais precisão.
E eu não lembro mais porquê comecei a escrever isso.
Talvez tenha algo a ver com o fato de eu estar me tornando um velho ranzinza. Talvez tenha algo a ver com o fato de que o último livro genial que li tenha sido há alguns anos. Talvez tenha a ver com o fato de eu estar me ausentando de muitas das coisas que eu costumava frequentar. Tudo tá ficando chato. Talvez eu que esteja ficando. Mas eu não aguento mais ler distopias com jovens protagonistas, não aguento mais música sobre tristeza, sobre capitalismo opressor, não aguento esse esquerdismo doentio que toma conta dos jovens por pura vaidade, não aguento mais ler artigos acadêmicos sobre computação e me deparar com o mesmo mimimi de que "Vivemos hoje num mundo globalizado em que a informática faz parte do nosso cotidiano". Não aguento mais gente achando que uma graduação é um diferencial no currículo. Chega a ser insuportável a forma como a produção acadêmica tem se desenrolado.
O problema, na verdade, é que eu não me sinto estimulado a ser o gênio construído que vai mudar toda essa perspectiva. Que vai compor músicas sobre o guarda-roupa de Byron ou sobre o sexo em tempo de holocausto nazista. Não me sinto estimulado a fazer a diferença. Fui educado à esperar que façam as coisas por mim.
E pior de tudo, é que isso tudo soa chato pra alguém, apesar de para mim ser algo relevante.
Toda opinião é um jogo de poder.