Neste momento ele deve estar do outro lado da cidade. Talvez acordando, coçando a barba macia e pensando em levantar-se. Não necessariamente nessa ordem. Talvez coçando a barba e pensando em mim. Escovando os dentes, olhando-se no espelho e pensando sobre meus lábios. Arrumando os livros na sua mochila. Não sei o que ele anda lendo. Talvez uma poesia concreta, ou uma nova literatura fantástica que fará sucesso daqui há alguns anos. Eu é que não ando lendo nada. Ando lendo apenas seus passos completos que circulam o mundo, ando lendo sua voz grave quando fala comigo ao telefone ou quando diz besteiras ao meu ouvido, ando lendo suas palavras de garoto apaixonado.
De uma certa forma, tenho ele nas mãos. De uma certa forma, tenho medo do que farei. Um rei limpa a bunda com sua coroa e serve sua própria comida na mesma. Seu rosto é sublime. Gosto dele, porém, não me daria por inteiro.
Com o tempo, com a vida e com a mulher que me cortou por dentro, colocou meus restos numa caixa de sapato e esqueceu-me no sótão de sua memória, aprendi a me proteger. Criei uma cápsula que me envolve. Não amo mais à toa. Um pênis ou uma boceta não muda o curso da minha vida, apenas pensamentos, ideias e atitudes me fazem parar no meio do caminho.
Desculpe-me se lhe ferir, querido. Desculpe-me se o meu amor próprio é maior que tudo nesse mundo. Desculpe-me se eu lhe usar um pouco. Não vou cortar-lhe, apenas vacilar com meu canivete por seu peito magro.
Um beijo doce no seu rosto e que o universo seja bondoso com você, pois eu não tenho noção dos meus desejos e alcances. Não sei até onde chegarei. Tente aprender algo com tudo isso, pois se eu sou assim foi por ter aprendido com a vida que amar assim não vale a pena.
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