sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Elas

Vamos às notas do dia.

I

Sua voz no telefone não me satisfaz. Sinto falta da sua mão, sua energia. Desculpa algumas coisas. Te amo. Todo ser humano é um caos e o amor é o que está entre quem se entende e se encontra. A gente se encontrou e se entendeu. Te amo, mais uma vez.
Você me avisou sobre a festa. A bióloga iria estar na festa. Fui.

II

Cheguei na festa. Seu sorriso é a elevação do ser, bióloga. Me faz bem. Não soube o que falar no meio de tantas pessoas, no meio de tantos olhares. Disseram que eu tenho cara de bêbado, querida. Talvez eu esteja mesmo um pouco embriagado pela vida ou pelos últimos acontecimentos. Na verdade os últimos acontecimentos aconteceram hoje. Grandiosos acontecimentos, diga-se de passagem. Recebi notícias sobre um acidente, sobre curativos de uma mulher que não aprendeu a amar de uma forma decente. Recebi também um sms da ruiva. Fui vê-la.

III

Estava chovendo. Por volta das nove e vinte, subi no ônibus em direção à casa da ruiva. Na verdade, antes de subir no ônibus eu me molhei um pouco na chuva, apenas para que quando chegasse na casa dela, ela sorrisse e dissesse com uma cara de pena "você se molhou...". Me molhei para dar dramaticidade á cena. Você me falou sobre problemas com sua família. Eu dei um "oi" para sua mãe e sua vó. Segurei sua mão e escutei tudo que você tinha para dizer. Escutei suas pequenas angústias, seus pequenos problemas e seus desejos. Percebi no pulsar de sua mão aconchegante e no burburinho doce que sua voz tem, que você é um ser humano. Você é um ser humano com problemas, com tristezas e você só tem a mim para te acalentar. E eu, que sempre tentei rever meus sentimentos rudes e meus sorrisos falsos, sorri de verdade para teus cabelos avermelhados, menina. Eu descobri naquela noite chuvosa que amava você pelo simples fato de você me enxergar como um amigo, como alguém que te sustenta nesse mundo louco cheio de tecnologias.
Eu, que sempre questionei meus sentimentos por você, esqueci da tua bunda e de tuas mordidas que me excitam e vi no teu olho uma pequena dor. Vi no teu olho que tu iria muito longe por mim e pensei que você merecia o mesmo. Querida, eu não quero transar com você. Não quero que meu gozo raivoso acabe manchando tua cama. Não desejo teu sexo obscuro e tímido. Não quero a aventura louca de subir no teu apartamento quando sua mãe não estiver para suar com você nos seus lençóis. Eu quero teu riso sincero no banco do terminal de ônibus. Quero tuas bobagens enquanto eu repito as falas decoradas do filme que passa na TV. Eu quero que você se envergonhe quando eu disser que você é linda e fofa. Não que eu não queira nunca mais na minha vida sentir teu corpo incauto e indeciso, eu o quero, mas não agora. Eu quero conhecer o que há por trás das raízes ruivas do teu cabelo adorável.

("lovely", ela diria)

Quero ver o que há de melhor, conhecer você por completo, cada uma das pontas do teu cabelo, cada uma das Marias que há aí dentro de ti. Quero a bebê que necessita de colo e carinho, a criança que necessita de mimos e sermões. E a mulher, que necessita de um homem, que talvez eu ainda não seja.

Voltei pra casa e decidi falar com aquela que tem o nome impronunciável. A idealizada. A número 4.

IV

Curativos. Você sempre precisou de curativos e nós dois sabemos disso. Eu também sempre precisei de curativos. Você está numa cama há meses. Sua mente inquieta lhe traiu, mas a minha ainda está inteira e em perfeito estado. Talvez eu tenha perdido um pouco do sentimentalismo que você conheceu. Talvez eu não esteja mais disposto a fazer tantas coisas por você. Eu já escrevi o que tinha de escrever sobre você, não sei porque ainda estou fazendo isso aqui. Você nunca soube amar da forma esperada. Esse seu jeito meio torto de gostar dos outros não dá mais certo comigo. Você é doadora de órgãos? Acho que eu queria tuas córneas.
Sua forma de ver as coisas, de encarar as pessoas na rua e de transparecer apenas o necessário com seu piscar de olhos é a única coisa que me encanta. Sua alegoria. Eu lhe comeria. Transaria com vossa senhoria numa cama bem arrumada. Transaria de uma forma cruel. Um vídeo seu na internet na tag "hardcore" com meu pênis de coadjuvante. O que você veio buscar? Eu tenho muitas respostas incertas para esta pergunta. Refúgio, a morte das suas saudades, segurança, alguém para descarregar sua raiva. Você não me tem em nenhuma delas, eu acho.
Nossa conversa foi recheada de memórias. "Você sabe...", "O de sempre..." "Você não mudou muito...". Eu não decidi o que fazer com você. Nunca soube direito o que fazer comigo, quanto mais com os outros. Quanto mais com você. Eu tenho certeza que metade dos meus amigos daria o mundo para um oportunidade com você, mas eu não. Eu já provei do teu chá alucinógeno. Eu conheci tua tribo canibal. As palavras são fortes demais, Nina, e eu não sei se você merece tantas.

É a idealização de tudo. Do mundo, das pessoas. Os sentidos conduzem-me ao erro. A vida não é problema e nem uma solução. É um caos.
Fique vivo ou morra tentando. 

15 de outubro de 2013

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

007

Os carros precisam de buracos na estrada para calibrar as suspensões, da mesma forma que uma bola de futebol precisa de alguns jogos para amolecer nos pés dos jogadores. O violão precisa desafinar de vez em quando, o motor precisa engasgar. Desgasto meu corpo com comidas ruins, meu sedentarismo e preciso que acabem comigo. Que me joguem na parede, me xinguem e me magoem.
Gosto de coisas únicas. Eu guardo muitos sentimentos dentro de mim. Não falo muito sobre eles, mas tenho alguns perambulando entre meu peito e minha cabeça. Eu tenho saudades. De tempos, de jogos, de bocas. Tenho saudades das tintas que as paredes da minha casa tinham, de cantar na frente do ventilador e de quando tinha amigos na vizinhança.
Minha mesada era de 30 reais. Como que um real para cada dia, mas se o mês tivesse 31, um dia ia ficar sem o real diário. Eu não usava óculos, não tinha mau hálito, tomava banho todos os dias e usava desodorantes. Acredite ou não, eu fui uma criança bonita, alegre e sensata. Não entendo como me tornei este mostro devorador de pensamentos. Eu era um bom aluno, seguia as regras e respeitava as pessoas. Com licença, obrigado, senhora. Como pude me tornar este "homem"?
Eu trocava fotos pelo bluetooth do celular, tinha um videogame e jogava bola periodicamente no campinho do meu bairro. Eu ia ao dentista e usava aparelho ortodôntico. Hoje em dia eu bebo cana com coca cola, fumo um baseado quando dá e passo as noites acordados fazendo coisas que não fazem o menor sentido para o resto do mundo. Me tornei o cara que não tem WhatsApp e não coloca foto de quando era bebê no facebook no dia das crianças. O cara que não compra presentes no natal, nem ovos de chocolate na páscoa e nem vai para o desfile no Sete de Setembro. Que não se importa com as novas descobertas da biologia, não acredita nos trabalhos em grupo da faculdade e nunca comeu nutella.
Eu tenho saudades. Tento me tornar às vezes um ser humano decente, um desses que acorda às seis e toma café pra ir pro trabalho. Um desses que paga as contas e fura a fila do jeitinho brasileiro.
A única coisa que acredito é na bondade. A bondade vai te salvar, vai te realizar os desejos e atender as preces. A bondade vai te proteger. O resto é bobagem pra arrecadar dinheiro.
Sinto saudades de algumas mãos. Sinto falta de alguns abraços, de alguns beijos e de algumas palavras. Minha saudade constrói um Frankstein. Duas coisas amenizam minha saudade: o chão e o céu. A madrugada me leva pra outras camas que não a minha. A madrugada fode comigo. Em outros quartos, a madrugada fode comigo. Eu sinto meus joelhos como um velho, limpo os óculos como um velho. Me masturbo como um ato de rebeldia, imaginando as mulheres que me odeiam e descontando meu ódio pelo tempo presente nos seus peitos, bundas e bocetas. No meu gozo se dissipa a dor do mundo que carrego nas veias pulsantes.
Sinto meu pé no chão. Meu chulé contrastando com o cheiro pálido que a cerâmica da minha casa possui. Imagino que por baixo do chão há um elemento único, algo denso, calculado e preciso. O chão me liga com todos os outros humanos. O chão assassina meu Frankstein de saudades. 
Notas da faculdade, trabalhos atrasados, matérias acumuladas, professores que não entendem a psicologia dos serer humanos. O ser humano não tem psicologia. O ser humano é o caos e o amor está entre quem se entende. Não quero aprender outras línguas. Não apenas para escrever poemas com outros sons. Os seres mudos me atraem, os surdos e os que não amam. Os que não entendem.
O céu acima de mim possui um elemento único. Uma paz que nunca será alcançada. O céu é único. Quando eu olho para ele, me sinto ligado a todas as pessoas do mundo. O céu dissolve meus Franksteins. O céu abate meus monstros e me faz voltar ao começo, onde eu não era nem humano nem monstro.

domingo, 13 de outubro de 2013

de tempo atrás

É dia de festa e eu não estou festivo.

Diário de bordo #3

Sobre o que podemos falar nessa noite de sábado?

Poderia falar das coisas que perdi, das coisas que achei. Poderia falar do Bukowski e me comparar a ele. A gente tem que deixar uma marca no mundo, querido. Aquele iogurte derramado na parede vai deixar a marca durante um bom tempo, e então, quando formos embora desta casa, o próximo inquilino verá as manchas. Talvez ignore e passe uma mão de tinta e esqueça para sempre que havia uma mancha de iogurte na parede de seu quarto.
Talvez o próximo inquilino encontre as manchas de esperma na parede e ache que foi alguma comida ou qualquer coisa. E eu, quando chegar na casa nova, procurarei vestígios de um inquilino antigo. acharei uma foto esquecida por ele. Uma foto de uma mulher. Uma foto antiga, digamos que dos anos 70. Uma mulher de vestido, sorrindo. Atrás da fotografia: "Com o amor que eu nunca lhe dei". E aí eu guardaria a fotografia como um tesouro. Me apaixonaria pela mulher. E então me mudaria novamente de casa e esqueceria a foto.
A verdade é que nunca me mudei. Dezesseis anos nos mesmos corredores, com as mesmas fotos na parede e as mesmas caras pálidas me acordando às seis da manhã para ir à escola. A escola é um lugar hostil. Na verdade, estou de férias. No meio do ano meu semestre começa na faculdade. Descobri que vou ter seis matérias. Na escola eu tinha dezessete. É uma diferença grande. Lembro das aulas tediosas de química, com as cadeias enormes de carbonos. Lembro das aulas felizes de minha professora loira a qual eu imagino nos meus desejos íntimos. Lembro-me do professor que levava à loucura meu amigo gay. Havia a professora que tinha sonífero na voz. Todas repetitivas as aulas. O professor entrava na sala, ligava o projetor e passava os slides, falando uma coisa qualquer de sua graduação. Por vezes a aula parava para se falar de maturidade, educação ou qualquer lição de moral.
Dormia muito. No meio da aula de biologia, me perdia entre bactérias e protozoários e começava a sonhar com um pônei perneta. Certa vez perguntei à professora de biologia o qual atitude era mais desrespeitosa: dormir na aula ou fingir que está interessado mesmo só se importando com a nota. Ela falou que dormir era mais justo consigo mesmo, pois você estava admitindo que não queria assistir à aula, enquanto que na outra opção o sujeito se engana. Depois da resposta, voltei ao meu lugar e dormi. Foi meu último dia de aula. Naquele dia, à noite, recebi a notícia da faculdade e não fui mais para a escola. Me livrei de correntes.

"A vida é uma cama de motel
já não sei se fodo ou se sou fodido."

Diário de bordo #4

Decidi criar o anonimato. Decidi mudar o nome do blog e me esconder, apesar de não saber bem porquê. Acho que quero dizer verdades. Quero escrever sem medos ou escrúpulos. Soltar frases soltas sem me preocupar com quem vai ler. Eu não amo você. Nem você. Eu pensei no rosto de duas pessoas ao escrever as duas últimas frases. Quem seriam elas, leitor?
Você ama as pessoas que diz que ama? São mil tretas por dia nesse mundo louco. Hoje eu fui num restaurante, num rodízio de comidas chinesas, japonesas e brasileiras, pra ser mais preciso. Em certo momento parei de comer pra olhar uma guria que se servia. Paro de viver para contemplar bundas. Me julguem. Quando amei uma mulher, ela me fodeu. Talvez não consiga criar mais sentimentos por outras. Desculpe-me querida se um dia você ler isso, mas não tenho coragem suficiente para lhe dizer que não te amo. Mas eu te amo. Não sei. Confuso.
Quase sempre confuso. Um fato interessante: hoje foi dia das crianças. Mas nada disso importa.
Eu não me sinto muito bem.

Apenas tretas de um mundo moderno.