quinta-feira, 17 de outubro de 2013

007

Os carros precisam de buracos na estrada para calibrar as suspensões, da mesma forma que uma bola de futebol precisa de alguns jogos para amolecer nos pés dos jogadores. O violão precisa desafinar de vez em quando, o motor precisa engasgar. Desgasto meu corpo com comidas ruins, meu sedentarismo e preciso que acabem comigo. Que me joguem na parede, me xinguem e me magoem.
Gosto de coisas únicas. Eu guardo muitos sentimentos dentro de mim. Não falo muito sobre eles, mas tenho alguns perambulando entre meu peito e minha cabeça. Eu tenho saudades. De tempos, de jogos, de bocas. Tenho saudades das tintas que as paredes da minha casa tinham, de cantar na frente do ventilador e de quando tinha amigos na vizinhança.
Minha mesada era de 30 reais. Como que um real para cada dia, mas se o mês tivesse 31, um dia ia ficar sem o real diário. Eu não usava óculos, não tinha mau hálito, tomava banho todos os dias e usava desodorantes. Acredite ou não, eu fui uma criança bonita, alegre e sensata. Não entendo como me tornei este mostro devorador de pensamentos. Eu era um bom aluno, seguia as regras e respeitava as pessoas. Com licença, obrigado, senhora. Como pude me tornar este "homem"?
Eu trocava fotos pelo bluetooth do celular, tinha um videogame e jogava bola periodicamente no campinho do meu bairro. Eu ia ao dentista e usava aparelho ortodôntico. Hoje em dia eu bebo cana com coca cola, fumo um baseado quando dá e passo as noites acordados fazendo coisas que não fazem o menor sentido para o resto do mundo. Me tornei o cara que não tem WhatsApp e não coloca foto de quando era bebê no facebook no dia das crianças. O cara que não compra presentes no natal, nem ovos de chocolate na páscoa e nem vai para o desfile no Sete de Setembro. Que não se importa com as novas descobertas da biologia, não acredita nos trabalhos em grupo da faculdade e nunca comeu nutella.
Eu tenho saudades. Tento me tornar às vezes um ser humano decente, um desses que acorda às seis e toma café pra ir pro trabalho. Um desses que paga as contas e fura a fila do jeitinho brasileiro.
A única coisa que acredito é na bondade. A bondade vai te salvar, vai te realizar os desejos e atender as preces. A bondade vai te proteger. O resto é bobagem pra arrecadar dinheiro.
Sinto saudades de algumas mãos. Sinto falta de alguns abraços, de alguns beijos e de algumas palavras. Minha saudade constrói um Frankstein. Duas coisas amenizam minha saudade: o chão e o céu. A madrugada me leva pra outras camas que não a minha. A madrugada fode comigo. Em outros quartos, a madrugada fode comigo. Eu sinto meus joelhos como um velho, limpo os óculos como um velho. Me masturbo como um ato de rebeldia, imaginando as mulheres que me odeiam e descontando meu ódio pelo tempo presente nos seus peitos, bundas e bocetas. No meu gozo se dissipa a dor do mundo que carrego nas veias pulsantes.
Sinto meu pé no chão. Meu chulé contrastando com o cheiro pálido que a cerâmica da minha casa possui. Imagino que por baixo do chão há um elemento único, algo denso, calculado e preciso. O chão me liga com todos os outros humanos. O chão assassina meu Frankstein de saudades. 
Notas da faculdade, trabalhos atrasados, matérias acumuladas, professores que não entendem a psicologia dos serer humanos. O ser humano não tem psicologia. O ser humano é o caos e o amor está entre quem se entende. Não quero aprender outras línguas. Não apenas para escrever poemas com outros sons. Os seres mudos me atraem, os surdos e os que não amam. Os que não entendem.
O céu acima de mim possui um elemento único. Uma paz que nunca será alcançada. O céu é único. Quando eu olho para ele, me sinto ligado a todas as pessoas do mundo. O céu dissolve meus Franksteins. O céu abate meus monstros e me faz voltar ao começo, onde eu não era nem humano nem monstro.

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