Os carros precisam de buracos na estrada para calibrar as suspensões, da mesma forma que uma bola de futebol precisa de alguns jogos
para amolecer nos pés dos jogadores. O violão precisa desafinar de vez
em quando, o motor precisa engasgar. Desgasto meu corpo com
comidas ruins, meu sedentarismo e preciso que acabem comigo. Que me joguem na parede, me xinguem e me magoem.
Gosto de coisas únicas. Eu guardo muitos sentimentos dentro de mim. Não falo muito sobre eles, mas tenho alguns perambulando entre meu peito e minha cabeça. Eu tenho saudades. De tempos, de jogos, de bocas. Tenho saudades das tintas que as paredes da minha casa tinham, de cantar na frente do ventilador e de quando tinha amigos na vizinhança.
Minha mesada era de 30 reais. Como que um real para cada dia, mas se o mês tivesse 31, um dia ia ficar sem o real diário. Eu não usava óculos, não tinha mau hálito, tomava banho todos os dias e usava desodorantes. Acredite ou não, eu fui uma criança bonita, alegre e sensata. Não entendo como me tornei este mostro devorador de pensamentos. Eu era um bom aluno, seguia as regras e respeitava as pessoas. Com licença, obrigado, senhora. Como pude me tornar este "homem"?
Eu trocava fotos pelo bluetooth do celular, tinha um videogame e jogava bola periodicamente no campinho do meu bairro. Eu ia ao dentista e usava aparelho ortodôntico. Hoje em dia eu bebo cana com coca cola, fumo um baseado quando dá e passo as noites acordados fazendo coisas que não fazem o menor sentido para o resto do mundo. Me tornei o cara que não tem WhatsApp e não coloca foto de quando era bebê no facebook no dia das crianças. O cara que não compra presentes no natal, nem ovos de chocolate na páscoa e nem vai para o desfile no Sete de Setembro. Que não se importa com as novas descobertas da biologia, não acredita nos trabalhos em grupo da faculdade e nunca comeu nutella.
Eu tenho saudades. Tento me tornar às vezes um ser humano decente, um desses que acorda às seis e toma café pra ir pro trabalho. Um desses que paga as contas e fura a fila do jeitinho brasileiro.
A única coisa que acredito é na bondade. A bondade vai te salvar, vai te realizar os desejos e atender as preces. A bondade vai te proteger. O resto é bobagem pra arrecadar dinheiro.
Sinto saudades de algumas mãos. Sinto falta de alguns abraços, de alguns beijos e de algumas palavras. Minha saudade constrói um Frankstein. Duas coisas amenizam minha saudade: o chão e o céu. A madrugada me leva pra outras camas que não a minha. A madrugada fode comigo. Em outros quartos, a madrugada fode comigo. Eu sinto meus joelhos como um velho, limpo os óculos como um velho. Me masturbo como um ato de rebeldia, imaginando as mulheres que me odeiam e descontando meu ódio pelo tempo presente nos seus peitos, bundas e bocetas. No meu gozo se dissipa a dor do mundo que carrego nas veias pulsantes.
Sinto meu pé no chão. Meu chulé contrastando com o cheiro pálido que a cerâmica da minha casa possui. Imagino que por baixo do chão há um elemento único, algo denso, calculado e preciso. O chão me liga com todos os outros humanos. O chão assassina meu Frankstein de saudades.
Notas da faculdade, trabalhos atrasados, matérias acumuladas, professores que não entendem a psicologia dos serer humanos. O ser humano não tem psicologia. O ser humano é o caos e o amor está entre quem se entende. Não quero aprender outras línguas. Não apenas para escrever poemas com outros sons. Os seres mudos me atraem, os surdos e os que não amam. Os que não entendem.
O céu acima de mim possui um elemento único. Uma paz que nunca será alcançada. O céu é único. Quando eu olho para ele, me sinto ligado a todas as pessoas do mundo. O céu dissolve meus Franksteins. O céu abate meus monstros e me faz voltar ao começo, onde eu não era nem humano nem monstro.
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