segunda-feira, 24 de março de 2014

chutando os baldes secos.

"Como assim 'eu não sei'? Tu tem que se programar, cara. Tem que saber como vai fazer as coisas..."
"A vida se faz sozinha. Eu tô aqui pra viver, não pra programar"
"Talvez se você se programasse, Ela ainda estivesse com você"

Na oralidade inexistente, ele me pareceu ter dito "Ela" com esse E maiúsculo. Mas, sempre que eu ouço o nome dela, é com um E maiúsculo. Com letreiros piscantes e cornetas à fôlego máximo. Porque todo Adão tem uma fruta proibida e uma eva que o faz comer.

E se eu tivesse me programado, será que ela ainda tava comigo? Uma relação não pode chegar muito longe sem sexo. Se ela ainda estivesse comigo, eu teria me deliciado na carne dela. Meu vegetarianismo não impede isso. Nem minha religião e nem meus conceitos morais. Transaria com ela.
Cachos morenos, boca ferina, me mordendo. A textura da sua saliva insalobra na densidade pulsante de meu pênis. Seria num desses domingos? Quantas vezes?
uma flor que emana vida e luz para todos os lados
Na minha cama, na dela?

Não, talvez não estaríamos juntos. Talvez, se eu tivesse me atentado quanto às semanas, quanto aos segredos que ouvi ao telefone, quanto a saudade que talvez ela não tenha sentido.  Não sei. Como todo o resto, não projetei o adeus. Nem o "olá, tudo bem? o que você tá ouvindo aí" "tô ouvindo engenheiros" "Ah, minha banda favorita... E a música também! Como você é um cara fantástico e carinhoso. Vamos criar uma relação diferente que no fim das contas vai ser igual a todas as outras. Não, todas as outras não. Igual àquelas que dão errado, que um dos envolvidos fica sem explicação e o outro se acha dono da razão. Vamo fazer isso ae?". Nunca fui de projetar. Se não tiver uma estrada, eu faço a minha. Mas sem orçamentos ou plantas. Sou como um acidente. E Ela parecia gostar disso.

Tem gente que gosta de erros.

E aí eu me pego pensando que nunca mais vou escrever nada pra ela, mas ela é a única coisa que dá sentido pra minha existência. Na verdade, ela já deu. O que dá sentido agora é a esperança de um dia encontrar alguém tão fantástico quanto Ela perdida por aí, que me faça me sentir pior que tudo.  Pois foi o único momento em que eu não pensei duas vezes, não quis dar pra trás.

Não, eu não sofro mais por Ela. Só sei que Ela é a pessoa mais fantástica que eu talvez tenha conhecido um dia e que ela dava sentido pra minha vida. Mas não, eu não queria tê-la novamente. É só um modus-operandus da minha cabeça escrever essas coisas. Ela não vai voltar. E se voltar, eu deixo ela do lado de fora, coloco comida e água. E de vez em quando um carinho.
Se ela fosse um gato, eu não iria me arriscar à alergia com os pelos dela.

eu terminei aquele livro maldito. aprendi coisas com ele. e não foi a me programar.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Essas "programações", planejamentos, são também encaradas como esperanças, e nada mais doloroso que uma esperança desmoronada. A esperança é o maior alimento da decepção, quem cria a expectativa é que é o culpado. Eu prefiro deixar fluir, deixar que aconteça aos poucos, e se me ver envolvido, foi tão natural que nem me dei conta, nem deu tempo de hesitar aflito. E se acabar, durou o quanto durou, se encararmos que as coisas têm seu tempo, tipo um efeito borboleta... porque o "e se?" sempre existe, mas a consequência disto ou daquilo resulta em alguma coisa, e tu pode fazer desta coisa uma coisa boa pra ti. Se durou muito e o fim foi horrível, ok, levanta, porquê o couro vai ta mais duro depois disso. Se foi rápido e leviano, ok também, uma vida boa é uma vida divertida. Todas as ações tem seu efeito, o "e se?´´ só serve pra próxima experiência, porque o que já foi já foi, não tem o que se fazer...
    Tu escreve muito bem meu, gosto disso..

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